Sobre

Baudelaire define o artista como homem da multidão e homem do mundo. A associação feita pelo poeta francês refere-se a sua forma de pensar em como o tempo “presente” faz-se um material essencial para registrar e imortalizar uma determinada época e a história cultural. A homem do mundo e homem da multidão relacionam-se o homem comum e os heroísmos cotidianos que não se encontram nas páginas – e telas – de uma indústria cultural massificadora e aniquiladora das singularidades. Embevecido por essa concepção pode-se pensar em história cotidiana, história do tempo presente. História dos que pertencem à história e acabam por ser alijados dela.

Seria, contudo, bastante injusto dar a Baudelaire – importante poeta, mas distanciado de nós – o mérito central da construção de um álbum do cotidiano de moradores da cidade de Cotia.

As palavras de Baudelaire me habitam desde a leitura do Pintor da Vida Moderna, e floresceram de maneira contundente regadas pela História Oral e pela Etnografia Audiovisual.

Floresceram, ainda, regadas pelas pesquisas, debates e reflexões no Diversitas e, mais recentemente, pelos Encontros em Melgaço. Regadas pela vivência e experiência partilhada com os alunos da Faap, Fatec e Usp. Regadas pela experimentação de novas metodologias para o ensino da linguagem popular e padrão, da narração pela palavra e pela imagem e para a reflexão e crítica à imagem de sujeito e história construída pela mídia.

História Fotografada, História (Com)Partilhada surge como fruto dessa fertilização e pretende reviver e reavivar a memória local, com as histórias dos homens comuns, em sua grandiosidade cotidiana.

História Fotografada, História (Com)Partilhada centra-se em fragmentos da história de fotografias escolhidas e narradas pelos personagens centrais desse momento capturado por elas. Esses fragmentos fazem parte de textos transcritos e transcriados pelos alunos de Comunicação e Expressão dos Cursos de Gestão Empresarial e Gestão da Produção Industrial da Fatec Cotia. Com esse exercício, não só os moradores de Cotia, mas seus entrevistadores tornam-se construtores da memória. Sherazades provocadoras do desejo de ouvir, ler e ver os personagens que – retomando uma vez mais Baudelaire – permitem um retrato da Modernidade.

Palavras a mais, mas fundamentais: Escolhi esse momento, 2017, para publicar os primeiros posts pois estou no lugar onde se configurou essa ideia: Melgaço. As experiências, os exercícios e as trocas propiciados pelo Fora de Campo, curso no âmbito do Festival Filmes do Homem, em 2016, foram fundamentais para a materialização desse projeto.

Melgaço e 2016 são os espaço e tempo. Mas posso afirmar que História Fotografada, História (Com)Partilhada vem de outros tempos e lugares. E vem, primordialmente, de pessoas – historiadores, fotógrafos, artistas, alunos… Gente!

Vem da vivência intelectual com José Carlos Sebe Bon Mehy, Zilda Márcia Iokói Griccoli, Eneida Maria de Souza, José Ribeiro, Rubens Fernandez Júnior, Ronaldo Entler, Sérgio Bairon, Manuela Matos Monteiro, João Lafuente, Claudia Moraes, Luiz Carlos Seixas, Ronaldo Arnoni, Maria Cecília Martinez, Teresa Teles, Selma Nunes, Lucas Navarro.

Vem das muitas histórias e seus narradores que fazem parte do Banco de Histórias do Diversitas.

Sandra Nunes

Palavras a mais: em 2019, o Blog História Fotografada, História Compartilhada passa a contar com Rute Costa da Silva, Estagiária e Assistente de Revisão.